sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Quando eu estiver velho

Quando eu estiver bem velho, olharei para o meu passado e farei um balanço de minha caminhada. Certamente analisarei minhas ações com certa complacência, mas não deixarei de admitir os muitos erros que já cometi e que cometerei ao longo de minha vida.
É quase certo que sentirei um pesar pelos beijos que não dei, abraços curtos que poderiam ser longos, amores que recusei e amores frustrados que senti. Certamente ficarei chateado tendo de assumir que enquanto Professor poderia ter feito muito mais. Contudo, nesse dia certamente não terei que passar pela vergonha de ter de admitir que, quando jovem, tentei “melhorar” meu país batendo panelas dentro de casa ou que fui numa micareta vestido com a camisa da CBF (entidade inegavelmente corrupta) tirar fotos com policiais militares acreditando estar fazendo revolução e lutando contra a corrupção.
Não poderei dizer que estudei a resistência dos materiais, mas que participei da resistência daqueles que sobrevivem numa sociedade de exclusão, daquele que mesmo sem precisar lutam por direitos de outros que estão sendo espoliados, desrespeitados.
Direi que em parte de minha vida (espero que a maior parte), certo ou errado, junto com companheiros valiosos, fui às ruas lutar contra as injustiças sofridas pelos meus concidadãos, principalmente os que têm suas vozes abafadas ou caladas.

Vou, enfim, poder dizer que o dito popular não é tão verdadeiro assim, pois será justamente por algo que não fiz que me livrarei de sentir uma tremenda vergonha.

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Escola "doutrinadora"

Numa discussão sobre o fechamento de escolas no estado de São Paulo houve quem dissesse que não se importava muito com tal fato, posto que seria melhor que isso ocorresse do que se instalasse escolas "doutrinadoras". 
Sendo assim, farei este pequeno ensaio para discutir tal assertiva de um dos arautos da sapiência, bastião da verdade.

A escola no Brasil (e no mundo), e em especial no Estado de SP, sempre foi e ainda é “doutrinadora” sim. Para atestarmos isso basta olharmos para sua história, desde aquilo que seria sua gênese: a catequese. A catequese visava e visa até hoje formar cristãos entre as crianças, ensinando-as desde cedo a sua doutrina. 
Mas beleza, vamos falar do profano, deixando o “sagrado” em paz, e voltar os olhos para fora do Brasil e longe de nossos tempos.
Após a Revolução Francesa, quando caiu o Antigo Regime, uma das primeiras ações pensadas pelos novos líderes foi a criação de escolas publicas onde se tivesse, entre outras coisas, o ensino de História. Com isso objetivava-se ensinar as crianças sobre os ideais iluministas e republicanos, garantindo o futuro do regime e a vitória da Revolução.
Situação parecida tivemos durante a ditadura militar no Brasil, quando o regime suprimiu do curriculum escolar matérias como História, Geografia, Sociologia e Filosofia, instituindo outras como Educação Moral e Cívica e as famosas OSPB (Ordem Social e Política Brasileira) e Estudos Sociais (onde se aprendia o hino e as datas "históricas), numa clara tentativa de impedir que determinados conhecimentos fossem transmitidos e que a ordem implantada a força não fosse contestada.
Seja pelo conteúdo proposto ou suprimido, seja por discussões feitas ou sumariamente impedidas de acontecer, sempre e em todos os tempos a educação ministrada atendia a propósitos muitas vezes inconfessáveis. Como diria Paulo Freire, “a educação é ideológica”.
Existe, entretanto, um grupo de pessoas que justamente por ter estudado nas escolas públicas paulistas afirma veementemente que partido A ou B está tentando doutrinar as crianças, como se a educação de hoje (ou de um passado recente) fosse isenta de ideologias, fosse um espaço neutro e as crianças de lá saíssem incólumes. Este tipo de ideia é prova cabal de que neste estado a educação é ideológica e atende a interesses tacanhos. As pessoas que sustentam essa posição equivocada são as mesmas que têm aversão aos livros, que defenestram Paulo Freire sem nunca sequer ter lido uma de suas obras, que desconhecem o processo histórico do próprio país, que não têm pensamento reflexivo (mas que são ótimas em decorar e repetir frases prontas), que não abstraem, e por isso mesmo não se dão conta de que sua condição é fruto justamente do projeto politico, cultural, econômico e social que estas escolas cumprem.
Sinto dizer, meus caros, mas vocês são prova de que a escola pública que o estado de São Paulo oferece é sim doutrinadora, e sua doutrina é a universalização da ignorância.

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Pero sigo siendo el rey

Uma entrevista num canto obscuro do palácio dos deputados...

- Eduardo Cunha, por que você colocou em votação essa emenda aglutinativa de uma matéria rejeita ainda ontem?

- Por que ela não passou ontem, deerrr!

- Mas e se não tivesse sido aprovada essa emenda aglutinativa?

- A gente daria outra aglutiadinha e colocaria pra votar amanhã!

- Mas Eduardo, seria o mesmo texto rejeitado duas vezes. Isso não pode!

- Não seria não! Olhe bem! Tá vendo aquela vírgula lá no artigo 6º no projeto de ontem? Pois bem, ela não está mais no de hoje. É outro texto! E eu já tinha planos de mudar a palavra “todavia” por “entretanto” numa possível aglutinada para amanhã.

- E assim o texto seria outro, certo?

- Exatamente! E também porque era um pedido do deputado Heráclito Fortes, aquele com a boca mucha e com a voz do Sílvio Luiz que se absteve na primeira votação por não concordar com o texto. Ele disse que aquele “todavia” deixava o texto um tanto impreciso. Ainda bem que conseguimos explicar pra ele sem precisar alterar. Cansa ficar repetindo o mesmo texto... ops! quero dizer, alterando todo o teor da matéria para que possamos apresenta-la novamente e novamente e novamente...

- Mas ainda depende de aprovação em dois turnos no Senado. E se por acaso o Senado barrar, Eduardo Cunha?

- Os senadores que se atrevam! Eu prometi pra mim mesmo que isso seria aprovado.

- Mas não depende só do senhor para que isso ocorra, isso é uma democracia. Existem regras e regimentos a serem cumpridas. Não as conhece?

- Regras? Regimentos? Acho que rasguei uns livrinhos assim que estavam na sala do presidente da Câmara assim que fui eleito para reinar nessa casa. Seja como for, precisamos é de pulso firme, não de regras e regimentos.

- Ainda sim o senhor não tem poder sobre o senado. Como pode garantir que tal projeto seja aprovado naquela casa?

- Simples, se eles não aprovarem lá o projetinho que fiz votar aqui, criarei uma PEC que dissolve o Senado e se não for aprovado nesta casa em primeira votação, vou dando aglutinadas até que todos se convençam que eu, Eduardo Cunha, movo céus e terras, vírgulas e “todavias”, e não desisto até conseguir o que eu quero. Afinal, sou o rei cristão da Câmara eleito por deus para governar o povo.

- Mas Eduardo, isso não é uma monarq...

- Cale a boca, repórter chato! Ousa discordar de mim? Polícia, leve esse sujeito para as masmorras! Tenho de mandar aglutinar muitas coisas hoje e ainda tem culto. 

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Não à inclusão carcerária

O dia de hoje nasceu com dois Sois: um resplandecente para os que lutam pelos direitos e pela dignidade humana; um turvo para os que querem incitar uma grande parte da população a acreditar num engodo.
A bancada da bala e da inclusão carcerária que queria a todo o custo reduzir a maioridade penal teve seus planos frustrados. Choraram, espernearam, gritaram e por vezes até onfenderam, pensando que assim conseguiriam empurrar goela abaixo essa matéria vil que seria mais um golpe contra a população das periferias, contra a juventude negra, contra a juventude pobre deste país.
Querem conservar e proteger a família brasileira, dizem eles. Mas que família? E quem são por eles considerados brasileiros? Ou nas periferias não há o que se considere família ou não são estas consideradas brasileiras, pois estes legisladores conservadores não as protegem nem defendem. Acaso defendem as famílias brasileiras quando invadem morros atirando primeiro e perguntando depois com sua polícia despreparada e até dolosa? E quando permitem que os governadores de seus próprios partidos cometam descalabros contra a Educação, estão defendendo as famílias? Ou serás que estariam defendendo as famílias brasileiras quando se esquecem que nas periferias não há o menor investimento em esporte, cultura e em lazer? A família brasileira é agredida muito antes da consumação de um crime, e vós, senhores conservadores, nada fazem para protegê-la. Querem agora puni-la ainda mais?
O deputado Ivan Valente foi muito feliz ao chamar a atenção destes deputados da inclusão carcerária dizendo que estes nunca votaram de forma séria os 10% do PIB para a Educação, que estes "defensores da família brasileira" preferem gastar 45% do orçamento para pagar juros de banqueiros (cuja maioria nem são brasileiros), mas que sempre se esquecem de pensar as políticas públicas que certamente teriam impacto maior na diminuição da violência do que a simples, vingativa e odienta punição.
Amanheceram hoje destilando veneno, dizendo que a maioria da população queria a redução. que essa maioria não foi respeitada. Essa maioria é a mesma que frequenta as escolas públicas que, por uma mera coincidência, são as escolas mais sucateadas. São dessas escolas sucateadas que saem tantos os criminosos quanto a maioria que cegamente defende tal medida. Querem tapar o Sol com a peneira com a falsa sensação de proteção criada pela "certeza da punição". A certeza da punição não restitui o que se perdeu nem impede que crimes ocorram. Continua o problema, mas tem-se a vingança. A bancada da inclusão carcerária quer apenas vingar, não sanar o problema impedindo que os delitos ocorram, e isso atende outros propósitos mais sórdidos ainda.
Se acham que o Estado está falhado, estejam ciente que vós sois parte principal deste Estado, meus caros conservadores legisladores. A falha do Estado é a vossa falha. Criar novas leis quando as já existentes não estão sendo devidamente cumpridas e vós que deveriam fiscalizar de perto o cumprimento destas leis não o fazem, materializa a mais pura tentativa de enganar a população carente com soluções que a marginalizam ainda mais, é querer mostrar serviço por meio de desserviço: isso é um erro, isso é um engodo.
E se vós, conservadores cristãos plantadores de engodos, ainda achais que a maioria tem sempre razão e que a vontade dela deve sempre ser respeitada, faço-vos lembrar que a maioria, detentora da razão, preferiu libertar Barrabás e condenar Jesus a morte. Penso que condenar é o que mais gostais de fazer.
Por fim, utilizo novamente a frase de Ivan Valente para resumir a questão: "Este Estado que não protege, que não acolhe, não pode punir!"

Viva a sensatez! Viva a juventude! Sim à Educação, à inclusão social! Não à redução e à inclusão carcerária!
Não passarão, senhores conservadores! Vosso latido é mais alto, mas nossa luta é justa e nossa gente mais aguerrida!

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Porque não muda nada...

O que mudaria na vida dos brasileiros se seguíssemos o exemplo estado-unidense e legalizássemos de vez o casamento entre pessoas do mesmo sexo? Na verdade, aumentaria o desespero dos grupos neopentecostais que se posicionam contrários a esta medida, mas em suma não mudaria nada, a não ser para os próprios contraentes do matrimônio.
No artigo quinto da Constituição Federal está escrito que não se deve fazer qualquer tipo de distinção entre os indivíduos, seja ela de raça, gênero, convicção política ou religiosa, entre outras. Essa ideia oriunda do Iluminismo visava acabar com lógica dos deveres dos súditos, acabando, assim, com as diferenças sociais do antigo regime que pesavam em favor da nobreza em detrimento da maior parte da população, implantando a ideia dos direitos do cidadão. Após a Revolução Francesa e a implantação da República naquele país, acabou-se com as diferenças (pero no mucho) e todos foram elevados à condição de cidadãos.
Nessa lógica haveria apenas o Estado a organizar e mediar as divergências entre os inúmeros cidadãos. Sendo o casamento um contrato celebrado entre dois indivíduos, cabe ao Estado mediar essa parceria, dando pleno amparo legal aos dois contraentes do matrimônio sem que qualquer característica seja considerada empecilho a esta união.
O casamento gay em nada se diferencia do heterossexual, então? Não!
Se o Estado Democrático de Direito não enxerga distinção de gênero, raça ou qualquer outra possível, sobraria, em ambos os casos, apenas dois cidadãos contraindo o matrimônio.
Mas o pastor e o padre das igrejas terão de celebrar os casamentos entre os homossexuais? Também não!
Desde a implantação da República no Brasil, mais precisamente com a Constituição de 1891, o Estado e a igreja se separaram definitivamente (mais uma vez pero no mucho). A partir daí o Estado relegou de vez a religião ao âmbito do privado, tendo o indivíduo o direito da liberdade religiosa, podendo este escolher livremente seu culto, ou mesmo não cultuar nada. As religiões puderam se organizar livremente pelo Estado brasileiro (outra vez pero no mucho), pois não caberia ao Estado legislar no âmbito do privado, mas apenas no público.  Sendo assim, as instituições religiosas puderam criar ou manter seus ritos, dogmas e regras (desde que não ferissem os princípios da Constituição), logo, o Estado não tem o direito de obrigar o pastor ou o padre a casar ninguém se nas regras de determinada religião isso não for previsto.
Contudo, vale salientar que o casamento religioso só tem validade espiritual e para o convívio dentro dos próprios círculos religiosos, pois os contratos de casamento com validade legal são emitidos pelo Estado por meio dos cartórios.
Ah, mas o casamento entre homossexuais fere os princípios cristãos e são má influência para os meus filhos!! Vale lembrar que o Brasil foi formado em bases cristãs católicas, e que a maior parte dos brasileiros se confessa cristã. Logo, todos os homossexuais daqui cresceram nesse ambiente supostamente cristão. Se o ambiente e o exemplo fossem tão determinantes assim, tais indivíduos seriam cristãos heterossexuais, não gays. Da mesma forma, ínsito que o Estado não deve se ater a normas religiosas para regular as relações entre os diversos cidadãos, haja vista que ele é laico.

No mais, a legalização do casamento entre homossexuais apenas aproxima um pouco mais as diversas sociedades da ideia iluminista da igualdade perante o Estado, pois reconhece que a orientação sexual do indivíduo não serve de atributo para tirar seu direito de cidadão, por conseguinte, de celebrar a assinatura de um contrato, como é o casamento.

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Cabra Macho

Por mais de três décadas viveu
sem ter tido uma só mulher.
Só teve amigos homens
e não formou a tal família,
como dizem que deus quer

Uma vez subiu num monte;
Foi encontrar uns camaradas.
Seu corpo estava reluzente;
disseram ali não ser mais homem,
mas deus com face transformada

Transgrediu algumas regras;
foi por isso então julgado.
Antes de sofrer a sua pena,
jantou com amigos homens
e por um homem foi beijado

Durante aquela derradeira ceia,
antes que dali todos saíssem;
Fez então seu último pedido:
Desejava que os amigos homens
seu corpo ali mesmo consumissem

Ensinou aos amigos homens
a amar incondicionalmente:
Rico, pobre, enfermo ou puta,
livre, escravo, nada importa
Afinal é tudo gente

Apanhou, sofreu, chorou, morreu
e não importa o que eu acho
Morreu jovem, morreu virgem
Pelos homens caçoado,
Mas acreditem, ele era um cabra macho

quinta-feira, 4 de junho de 2015

O inverso é o lado certo

Não sinto o inverso do amor, mas sinto que amo inversamente. Não presuma que por dizer que amo inversamente eu odeio aquela que inversamente amo, pois fazendo isso incorrerás no inverso do acerto.
Tendo certa ordem na desordem que é o amor, primeiro apaixona-se pela beleza, depois encanta-se pelos demais atributos. Fiz o inverso - mesmo seguindo a ordem e tendo percebido logo de início aquela jovial beleza – e me apaixonei pelo modo invertido com que ela encara o mundo e sua ordem, pelo modo como inverte minhas palavras e as próprias, pelo modo como enxerga a si mesma – o inverso dos demais.
Invertendo valores éticos da ordem vigente desordenou meu modo de pensar e hoje penso o inverso do que pensava - e criou-se uma nova ordem de pensamento inverso.
Amei primeiro, apaixonei-me depois. Casamo-nos antes de namorar, e não namoraremos nunca, pois antes de pedir em namoro, para sermos o inverso, teremos de fazer e terminar uma poesia inversa que nunca termina por não começar.

Eis a poesia prometida a ti, poesia inversa por não ter versos,