quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Sant'Ana

E como na obra que produziu a existência
onde aquilo que nada era tudo passou a ser
O mais puro e santo pedaço de mal caminho
reorganizando em sete dias todo um caos
que atravancava por inteiro o meu viver
Fez como a mais potente das divindades
que em sua magnanimidade 
escolhe um ínfimo ser e o cobre de carinho.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Mãos estendidas.

Mães e crianças: sentimentos diferentes despertados pela mesma coisa.
Crianças, na rua, com suas pequenas mãos espalmadas para o céu;
Suas mães, no quintal, a amaldiçoar;

Num dia atípico, o Sol podia ser encarado diretamente
As mães, sem notá-lo, a amaldiçoar
As crianças, com as mãos espalmadas, na rua a brincar

Num fenômeno semelhante ao proporcionado pelo Vesúvio
Escondido atrás de inimaginável véu
O Sol se fizera ver em um vestido púrpura

Desvelava-se o Sol aos olhos mortais,
As crianças, ainda na rua, com as mãos para o céu, a brincar
As mães, já dentro de casa, a amaldiçoar

Os que transitavam se viam debaixo de névoa
Mas não era nimbos nem o gélido inverno que a provocara
Pompéia tinha vez, outra vez.

Ao norte, ao longe, se erguia o véu que se antepunha ao Sol
As mães... ainda a amaldiçoar
E as crianças, cheias de energia, continuavam a brincar

Donde antes era verde vivo
Agora era um arco-íris de cores mortas
Beje, marrom, preto, cinza... cores que o compunham

O Sol se deixava ver, a neblina dominava e o arco-íris se estendia
As crianças a brincar, com suas mãos apanhar
Suas mães, amaldiçoando, indignadas, também a apanhar.

O Sol, num inverno verão, muito quente
Indivíduos, isqueiros, ideias, método antigo
Tempo seco, canavial inteiro, um terreno baldio

Ao norte: uma fagulha e um incêndio.
Ao sul, crianças na rua a brincar
Em casa, as mãe a apanhar, a amaldiçoar

Dum lampejar do grande gênio humano: uma erupção.
Labaredas estalam, uma carotina de fumaça toma a cidade
Um Vesúvio que cospe suas cinzas sobre Pompéia

Dos flocos de neve queimada e quente dois sentimentos distintos apareciam
Nas crianças, alegria de quem brinca
Já nas mamães um ódio de dia contraprodutivo.

Crianças com mãos estendidas ao céu apanhavam cinzas
Mães com mãos estendidas sob varal apanhavam roupas acinzentadas
O Sol avermelhado a se deixar ver; mães a amaldiçoar; crianças a brincar...





domingo, 25 de maio de 2014

A culpa é do vidro.

O que é pior do que um amor não correspondido?
Um amor correspondido e não consumado por ser "impossível".
Querer, saber que é quisto,
e mesmo assim não poder dar vazão a um sentimento tão puro:
eis o que corrói mais duramente a alma.
É como se um corresse para o outro na ânsia de um simples abraço
um singelo, apaixonado, terno e eterno abraço,
mas tivessem, cada um em torno de si, uma prisão,
uma redoma de vidro transparente e inquebrável,
que, cruel, permitisse que um avistasse o outro,
todavia, impedisse o toque, o cheiro, o beijo.
O vidro é o vilão.
A amada está ali, a menos de um palmo,
escuta-se seu coração batendo devido ao esforço em romper a redoma
Meu coração quase arrebenta o peito pelo esforço e pela proximidade:
ela está ali, do outro lado, a menos de um palmo
mas o vidro continua firme, se recusa a ceder.
O vilão é o vidro.
Ele impede o toque, o cheiro, o beijo...

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Os grilhões da liberdade

Em homenagem à minha amiga, uma presa menina livre.


A liberdade só existe
pr´aquele que a almeja,
que no fundo d´alma deseja,
e independente das barreiras
por cima destas passa, persiste.”


Aquele que insistiu e buscou
a liberdade tão sonhada,
que é por muitos cobiçada,
ao fim da vida se da conta
que tal conceito só lhe ofuscou.


Os olhos sempre lá focados,
fixos no mesmo objetivo,
continuar sem ter motivo,
à liberdade como fim último,
parecendo estar enfeitiçado.


E depois de tanto tempo,
andando pra todo lado,
se sentindo livre, desapegado
reflete sobre o que alcançou
e se indaga por um momento.


Será mesmo que sou livre
por poder ir e voltar,
viver sem me preocupar,
com pessoas e/ou coisas,
pois ser livre nisso consiste?


E a conclusão a que se chega
é um tanto contraditória
pois puxando pela memória
livre foi para ir e vir
tal como sempre se deseja


Mas preso sempre esteve
e isto é uma verdade.
“Livre” para buscar a liberdade
percebeu que os grilhões dessa utopia
escravo de si sempre o manteve.



sábado, 10 de maio de 2014

Mitose discursiva

Falácias continuam passando por verdades, e as consequências são tratadas como causas.
Repito mais uma vez: ninguém é (ou pelo menos poucos são) a favor de crimes e nem defende criminosos. A "esquerda" luta contra o atual sistema que patrocina as injustiças que geram estes problemas. Os interesses envolvidos criam esses problemas mas se isentam da culpa. Aí criam um modo de "limpar as cagadas" que eles mesmos criaram e fazem parecer que o problema não foi criado por eles, mas a solução sim.
Lutar pela diminuição da maioridade penal, por penas mais duras para maiores ou mesmo a própria pena de morte é o que esta elite defende e faz o povo repetir para "legitimar" isto como se fosse a "vontade do povo". É sim a vontade do povo. Mas uma vontade plantada pela elite no seio do povo. Defender essas bandeiras é brincar de Dom Quixote lutando contra moinhos de vento, é lutar contra uma doença combatendo os sintomas e não a causa. Para agradar meus amigos de "direita" e dar um exemplo que possam compreender bem, citarei o Evangelho. Ao lado de Jesus dois ladrões foram crucifixados e mortos. Ou seja, o furto e/ou o roubo, que são crimes que não atentam diretamente contra a vida, eram punidos com a morte pelo Império Romano e mesmo assim os crimes não cessaram. No Brasil mesmo a pena de morte existiu até finais do século XIX, e mesmo assim os crimes estão aí e podeis, meus caros "direitistas", por conta deles, praticar sua verborragia e berrar aos quatro cantos o seu ódio.
O que me assusta não são os discursos apropriados e repetidos, mas a falta de coerência nos discursos. Não há análise do problema, muito menos a reflexão acerca do que está sendo dito, mas um simples reproduzir de uma ignorância tremenda em forma de jargões como se a solução para os problemas residisse tão somente ali, na repetição destes mesmos jargões.
Provavelmente alguns já estejam vislumbrando o cadafalso, pois dizer publicamente que este atual sistema é injusto, que a "bandidagem" é "culpada e vítima" ao mesmo tempo, pode ser considerado crime de lesa-majestade, punível com a morte. Mas como já disse. a pena para crimes não são impeditivos, mas punições para os mesmos. Pelo que impediria crimes ou diminuiria drasticamente a sua incidência vós não quereis lutar, meus caros amigos: lutar diretamente e ativamente para a diminuição das injustiças sociais. Preferis o comodismo da situação em que se encontram e o "direito" de expressar sua opinião tal como um papagaio. 

quarta-feira, 30 de abril de 2014

Viiiixiiiiiii

Um caso ocorrido mais ou menos assim...

Em uma aula no primeiro colegial, eis que estávamos discutindo a formação de discursos que se pretendem verdade em nossa sociedade. Naquela sala, a mais lotada da escola, dizia-se que pouco se poderia produzir, o que sempre contestei. De fato, o elevado número de alunos dificulta um atendimento mais individualizado, o que pode comprometer o bom desempenho dos mesmos. Contudo, nunca tive problema (exceto com a voz) em dar aulas ali, tanto que é uma das salas em que a discussão acaba sendo mais produtiva (o que contraria a lógica).
Nesta aula, eis que apareceu um representante de uma editora querendo vender uma espécie de "kit do vestibulando"...
O cara, bem vestido e bem adestrado (uma vez que decorou um texto grandessíssimo), falou por cerca de 10 minutos sem sequer tomar fôlego. Naquele discurso incisivo, o rapaz, querendo convencer a todo o custo, disse que todos podem entrar nas melhores faculdades do país, desde que realmente se empenhem (e comprem o seu produto, obviamente), que tudo dependia deles mesmos.
Juro que tentei, mas não pude ficar quieto. Indaguei-o: - "o senhor acredita mesmo que basta eles quererem e se empenharem que conseguirão passar?". O rapaz prontamente respondeu que sim. Aí propus a ele o seguinte raciocínio: - "imaginemos que todos os alunos do Djanira Velho resolvam prestar, por exemplo, medicina na USP Ribeirão, e que para alcançarem tal objetivo todos comprem o teu material e percam noites de sono neste processo de preparo. Ainda sim o senhor acha que todos podem conseguir, bastando eles quererem, comprarem este material e se empenharem?" Mais uma vez ele respondeu que sim. Prossegui: - "então, meu caro amigo, pensemos: nesta escola existem 4 terceiros colegiais, todos eles com uma média de 32 alunos, que se somados obteremos o número de 128 alunos. Ocorre que na Medicina da USP, por ano, são abertas apenas 100 vagas. Isso nos leva a crer que mesmo que todos se empenhem e comprem o teu material, no mínimo 28 destes não entrarão na faculdade, concordas comigo?". Ele respondeu vacilante: - "Sim". - "Então também há de concordar que o que o senhor está falando para eles a respeito de que basta querer e se empenhar que conseguirão entrar nas melhores faculdades não é bem uma verdade, mas apenas um discurso muito difundido que acaba por escamotear um sistema desigual e imputar a culpa nos próprios alunos, não é mesmo?". Ele ficou em silêncio.
Os alunos aguardaram uma resposta que não veio. Depois de alguns segundos de silêncio do rapaz e alguns risinhos contidos dos alunos ele resolveu retomar o discurso, desta vez falando do preço e condições de pagamento. Ao final deste discurso, eis a maior das pérolas, a que realmente valeu a pena escutar e que me motiva a continuar a dar aulas, pois mostra que ainda é possível ensinar a refletir:
Uma de minhas alunas levantou a mão e perguntou: - "moço, o senhor fez faculdade?". O rapaz, perplexo com a pergunta, deu uma engasgada e respondeu: - "não". A menina se lançou novamente contra ele e o indagou: - "se o kit que estás vendendo é tão bom assim, por que, então, o senhor não o usou para conseguir entrar em uma? Vai ver ele não funciona tão bem assim". A sala soltou um sonoro "vixiiiiii". O rapaz, constrangido, sem preparo para lidar com aquela situação, gaguejando, respondeu de forma quase incompreensível, entregou uns formulários, despediu-se com um sorriso amarelo e foi-se embora.
Com sua saída a sala inteira pôs-se a discutir o que ele tinha dito e a apontar as incoerências em seu discurso, pondo suas afirmativas em confronto com a realidade.
O melhor ensinamento que um Professor de humanas pode dar aos alunos é o "ensinar a pensar".
Ensinando-os a questionar certamente eles mesmos passarão a notar as incoerências que os cercam, e consequentemente poderão lutar para acabar com essas injustiças.
Não vou negar que senti um certo pesar pelo constrangimento do vendedor, mas tampouco negarei que foi muito bom ouvir um aluno questionando assim e não comprando um discurso passivamente. Creio que este episódio será um daqueles que jamais esquecerei.

sexta-feira, 25 de abril de 2014

WG: ame-o ou deixe a Câmara!


Em Ribeirão Preto até pela internet a Câmara Municipal está impedindo o cidadão de se manifestar. Estava vendo um vídeo do programa Café com o Presidente (https://www.youtube.com/watch?v=XsqEku_Mz7I) em que o vereador dizia coisas das quais discordei. Quando fui postar um comentário acerca de sua incoerência, eis que (tal como é possível ver na parte de baixo da foto) dizia que os comentários estão "desativados". Tentei, então, clicar em "não gostei", mas apareceu a mensagem "não é possível avaliar este vídeo" e em cima estava escrito em vermelho "inscreva-se". Identifique-se na Câmara; inscreva-se no canal da Câmara: o método para conter as vozes contrárias são os mesmos tanto no mundo real quanto no virtual.
No final das contas, opinião só para quem for a favor dos que lá estão usando da Câmara para atenderem interesses privados.
O impressionante é que no vídeo o presidente da Câmara ainda tem coragem de dizer que "Nós estamos aqui à disposição de toda nossa população". Toda a nossa população? Como assim? 


E por que, então, ontem ninguém foi responder às indagações dos manifestantes contrários ao presidente da casa? Por que somente deles foi exigido cadastramento, sendo que muitos adentravam sem serem cadastrados e sem revista alguma? Por que negam aos que ousam se manifestar contrariamente às arbitrariedades dos vereadores o direito a tribuna? Oras, ao negarem aos que se colocam contrários aos desmandos praticados o direito de falar na tribuna, restam a eles reverberar sua indignação das cadeiras. Qual foi a maneira de se desvencilhar desses manifestantes? Cadastrá-los. 
Essa decisão não é, tal como enfatiza o coronel, para dar mais segurança aos presentes, pois para quem frequenta a Câmara sabe que são os aliados e funcionários do presidente da casa os responsáveis pelo tumulto. Além do mais, já se impediu a entrada de manifestantes com máscaras;  já encheram a Câmara com a GCM (armada) e até com a PM; a Câmara está repleta de câmeras de monitoramento; se um manifestante cometer algum delito seria muito fácil identificá-lo. Essa decisão ultrajante tem como único objetivo a perseguição política: Identificar e perseguir mais ainda os manifestantes, ou então os impedirem de entrar. Esta gestão da Câmara, quer seja na portaria quer na internet, está criando uma espécie de DIP, de DOPS e de DOI-CODI. Como gritam os manifestantes: "a verdade é dura, em Ribeirão Preto existe ditadura". É notória a tentativa de se impedir a entrada dos que ousam lutar contra os desmandos dos vereadores, em especial do atual presidente da Câmara. Nota-se um verdadeiro "WG: ame-o ou dexe a Câmara!".
Em Ribeirão Preto podemos notar que o passado se faz presente, pois temos uma gestão marcada pela permanência do coronelismo dos primeiros anos da República; pelo controle da informação iniciado por Vargas; e pelas práticas repressivas aperfeiçoadas pela ditadura. Falta somente chegamos às torturas e exílios, pois o cadastramento, a tentativa de dar um "cala boca" e a perseguição política já tiveram início.



Imagens retiradas de:

Imagem 1:
https://www.youtube.com/watch?v=XsqEku_Mz7I

Imagem 2: 
http://www.jornalacidade.com.br/multimidia/fotosdodia/GFOT,0,3,14699,Manifestantes+sem+cadastro+sao+vetados+na+Camara+de+Ribeirao.aspx#1